O que conta é aquilo que não se conta

Em recente viagem ao interior de São Paulo, passei em frente a uma concessionária de automóveis e visualizei uma placa enorme em frente ao estabelecimento com os seguintes dizeres: 4.500 metros de área construída, a mais moderna concessionária da região com instalações próprias. Típica empresa da nova sociedade do conhecimento, pois vende serviços, no entanto a mentalidade da sociedade industrial.

O mercado está dando pouca importância para instalações próprias e para os 4.500 metros de área anunciados com efusividade pela concessionária.

O mercado quer atendimento, preço, condições de pagamento, serviço pós-venda. O mundo atual pede empresas “leves”, que tenham pouco ativo imobilizado (ativos tangíveis) e muitos ativos intangíveis (marca, relacionamento, talentos, cultura). Se possível, alugue tudo e não tenha nada próprio.

É muito difícil estabelecer este tipo de mentalidade em um país que tem na sua cultura o “bem de raiz” trazido pelos portugueses na época do descobrimento, onde o ter é mais importante que o ser. O ser é o que os americanos chamam de vantagem invisível. É uma vantagem que somente a empresa em questão compreende e utiliza, mas que os concorrentes não podem copiar com facilidade. Pessoas, idéias, conhecimento, relacionamento, sistemas, processos de trabalho, marca, local de trabalho e cultura não aparecem no balanço contábil ou em uma declaração de receita, no entanto, são condutores administráveis e normalmente quantificáveis de criação de valor corporativo. São a fonte da vantagem invisível.

A General Eletric prosperou muito sob o comando de Jack Welch, enquanto que a Westinghouse, que já havia sido uma séria concorrente, contratou 05 presidentes errados seguidos e finalmente se desintegrou.
A liderança de uma grande corporação, o presidente e a equipe que ele monta, pode fornecer uma vantagem invisível porque tem um grande impacto no desempenho e potencial da companhia. No Brasil, temos um bom exemplo das empresas na qual o grupo GP investe dinheiro, a grande maioria é muito bem sucedida com retornos sobre investimentos espetaculares. Motivo: estilo de liderança.

A consultoria Watson Wyatt estudou 405 empresas e identificou que uma equipe bem administrada pode acrescentar até 30% ao valor do mercado de uma empresa. Recentemente, uma empresa americana
de varejo comprou no Brasil uma rede de supermercados na região nordeste e pagou aproximadamente
duzentos e setenta milhões de reais (levou prédios, móveis, utensílios, frotas, centro logístico e tudo mais que possa contar). Esta mesma rede comprada possuía um cartão de crédito com uma penetração de mercado muito forte na região nordeste. Um banco de São Paulo arrematou a empresa de cartão por menos de duzentos e quarenta milhões. O que este banco levou para casa? Um CD com mais de dois milhões de nomes de clientes com excelente histórico de compras e scorecredit. O banco comprou o capital de relacionamento, e pouca importância deu aos ativos físicos e tangíveis.

Bancos, quando vão às compras, essencialmente estão comprando o capital do relacionamento dos adquiridos, e um pouco de capital intelectual. Valores incalculáveis pelos procedimentos contábeis normais, mas que possuem um valor significativo para agregação de valor ao negócio. As declarações contábeis tradicionais revelam apenas a ponta do iceberg. A Enron quando quebrou, faturava mais de 30 bilhões de dólares, quebrou por um problema invisível de ética, que veio à tona após uma denúncia anônima, junto com ela foi a clássica e prestigiada empresa de auditoria Arthur Andersen. O fato é que a natureza competitiva das empresas mudou do físico para o intangível, do visível para o invisível, do visto para o não visto. A natureza da geração de valor vem passando por uma mudança de paradigma. Saint Exupéry, em seu clássico livro O Pequeno Príncipe, teria dito: o essencial é invisível aos olhos.

Romeo Deon Busarello (Busarello)
Diretor Marketing Tecnisa
Professor da ESPM e IBMEC

~ por bloglideranca em março 5, 2010.

2 Respostas to “O que conta é aquilo que não se conta”

  1. Não há como não concordar com o professor Busarello, uma vez que pratiquei o que ele colocou. Em 2009 abri uma marca de camisetas chamada Loop Shirts, naquele mesmo ano comecei com meu sócio um plano dentro das mídias sociais, mais leve que nossa empresa era algo impossível, pois havia apenas a marca, e uma promessa de camisetas diferenciadas.
    Criamos uma propaganda bastante amadora usando stop motion, e geramos um certo BUZZ na rede, fomos adquirindo seguidores no twitter, fazendo algumas outras ações, e acabamos entre os 50 maiores perfis em relevância na região de Joinville. Sem vender nenhuma peça.
    Nós vendíamos uma promessa, hoje, felizmente entregamos essa promessa. Mas com muito mais, tentando atingir com mais do que camisetas, com relacionamento.
    Muitos dos pontos que foram vistos na pós com o professor, na Sustentare, foram já aplicados ao negócio, e já há a certeza de que colheremos os frutos dessa inovação.

  2. A Loop Shirts nasceu de uma ideia de dois amigos que tem um sonho de criar camisetas com muito estilo e com ótima qualidade. E o meio de divulgação mais eficiente foi utilizar as redes sociais. Na próxima semana faremos uma pequena ação na CHina utilizando o twitpic e o twitchat. E a Sustentare entra justamente neste conceito de 2.0 e até com a Realidade Aumentada do ano passado.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.